O que é o olho seco
A frente do olho é coberta por um filme finíssimo de lágrima, renovado a cada piscada. Esse filme tem três camadas que trabalham juntas: uma oleosa por fora, que impede a evaporação; uma aquosa no meio, que hidrata e limpa; e uma mucosa por dentro, que faz a lágrima aderir à superfície.
O olho seco acontece quando esse filme deixa de cumprir sua função — e isso pode se dar por dois motivos bem diferentes:
- Falta de produção. As glândulas lacrimais produzem menos lágrima do que o necessário
- Excesso de evaporação. A produção até é normal, mas a camada oleosa está ruim e a lágrima seca rápido demais. Essa é, de longe, a forma mais comum — e vem de pequenas glândulas na borda das pálpebras, as glândulas de Meibômio, que entopem e param de entregar o óleo
Os dois tipos causam a mesma queixa, mas pedem tratamentos diferentes. Pingar lágrima artificial num olho seco por evaporação alivia por meia hora e não resolve a causa. É por isso que tanta gente diz que "o colírio não funciona": o colírio estava certo para outro problema.
Como o olho seco se manifesta
A queixa quase nunca é "meu olho está seco". Costuma ser:
- Ardência ou queimação, que piora ao longo do dia
- Sensação de areia ou cisco, sem que haja nada no olho
- Visão que embaça e melhora quando você pisca — um sinal bastante característico
- Olhos cansados ao ler ou usar o computador, com vontade de fechar
- Vermelhidão leve e constante
- Dificuldade ou intolerância para usar lente de contato, que antes era tranquila
Parece contradição, mas é o contrário: a superfície ressecada irrita, e a irritação dispara uma produção reflexa de lágrima — aquela lágrima "de emergência", aguada, que escorre pelo rosto e não hidrata nada. Muito paciente chega dizendo que os olhos vivem chorando, e o diagnóstico é olho seco.
O que faz piorar
O olho seco quase sempre tem mais de uma causa somada. As que mais aparecem no consultório:
- Telas. Concentrado numa tela, você pisca cerca de um terço do normal — e a piscada incompleta não espalha o filme lacrimal
- Ar-condicionado e ventilador, principalmente apontados para o rosto, e o vento do carro
- Idade e menopausa. A produção cai com os anos, e a queda hormonal acelera esse processo
- Medicamentos: antialérgicos, antidepressivos, diuréticos, remédios para pressão e para próstata, isotretinoína
- Blefarite — inflamação crônica da borda da pálpebra, que entope as glândulas de óleo
- Doenças autoimunes, como a síndrome de Sjögren e a artrite reumatoide
- Lente de contato em uso prolongado e cirurgia refrativa, que costuma deixar o olho mais seco por alguns meses
Como eu faço o diagnóstico
Boa parte do diagnóstico está na conversa: quando começou, o que piora, que remédios você usa, quantas horas por dia na tela. Depois vem o exame na lâmpada de fenda, o microscópio do consultório, onde eu vejo o que a queixa não conta:
- A qualidade e o tempo do filme lacrimal — em quantos segundos ele se rompe depois de uma piscada
- A borda das pálpebras e as glândulas de óleo, para saber se o problema é de evaporação. Uma expressão suave da pálpebra mostra se sai óleo, e como ele está
- A superfície da córnea e da conjuntiva, com um corante que revela os pontos ressecados que a olho nu não aparecem
- O volume de lágrima acumulado na margem da pálpebra
É esse conjunto que separa o olho seco por falta de produção do olho seco por evaporação — e essa separação é o que define o tratamento.
Como eu trato
Aqui vale um alerta de expectativa, e prefiro dizer logo: olho seco é uma condição de controle, não de cura. O objetivo é você passar o dia sem lembrar dos próprios olhos. Isso se consegue, e na maioria das vezes sem grande complicação — mas exige constância.
O que vem primeiro
- Lubrificantes. Não são todos iguais: mudam a viscosidade, a composição e a presença de conservante. Quem pinga mais de quatro vezes ao dia deve usar sem conservante, porque o próprio conservante irrita a superfície com o tempo
- Compressa morna e higiene das pálpebras, quando o problema é evaporativo. É o tratamento mais eficaz e o mais abandonado: derrete o óleo endurecido e desentope as glândulas. Feito todo dia, muda o quadro em semanas
- Ajuste do ambiente e do hábito: afastar o ar-condicionado do rosto, piscar de propósito nas pausas da tela, baixar o monitor para que a pálpebra cubra mais o olho
Quando é preciso mais
- Anti-inflamatório em colírio, por períodos definidos, quando há inflamação da superfície
- Colírios que aumentam a produção de lágrima, indicados no olho seco por deficiência aquosa
- Oclusão do ponto lacrimal — um pequeno plug que fecha o ralo por onde a lágrima escoa, fazendo a que existe durar mais
- Tratar o que está por trás: a blefarite, a alergia, a doença autoimune ou o medicamento que está ressecando
Dê tempo ao tratamento. A superfície do olho leva de seis a doze semanas para se recuperar, e quase todo abandono acontece na terceira semana, quando a melhora ainda é parcial. Se algo não estiver funcionando, me diga — trocamos. O que não ajuda é parar em silêncio.
Resumo rápido
Olho seco é uma das queixas mais frequentes do consultório e uma das mais mal tratadas, porque quase sempre é reduzida a "pingue uma lágrima artificial". Existem dois mecanismos distintos, e o exame na consulta define qual é o seu — o que muda completamente a conduta. O tratamento controla muito bem os sintomas na maioria das pessoas, desde que seja mantido. E o olho que vive lacrimejando merece exame igual: com frequência é o olho seco pedindo socorro.
Se você convive com ardência, areia nos olhos ou visão que embaça e melhora ao piscar, vale uma avaliação. Descobrir de que tipo é o seu olho seco é o que faz o tratamento finalmente funcionar.