O que é o glaucoma
O glaucoma é uma doença do nervo óptico — o cabo que leva a imagem do olho até o cérebro. Esse nervo é feito de mais de um milhão de fibras, e no glaucoma elas vão sendo perdidas, aos poucos, sem repor.
O principal fator envolvido é a pressão dentro do olho. O olho produz um líquido continuamente e o escoa por um sistema de drenagem. Quando esse escoamento não dá conta, a pressão sobe e comprime o nervo. Mas atenção a um ponto que confunde muita gente: pressão alta não é o mesmo que glaucoma, e existe glaucoma com pressão dentro do normal.
Glaucoma não é "pressão alta no olho": é a lesão do nervo óptico, que na maioria das vezes tem a pressão como causa — e que, uma vez instalada, não volta atrás.
Por que ele passa despercebido
Esta é a parte que mais assusta, e é preciso dizer com clareza: no tipo mais comum, o glaucoma não dói, não embaça e não deixa o olho vermelho.
A perda começa pela periferia do campo de visão, não pelo centro. E o cérebro é muito bom em preencher buracos: ele completa a imagem que falta com o que o outro olho vê e com o que ele espera encontrar ali. O resultado é que a pessoa segue lendo, dirigindo e reconhecendo rostos com o campo de visão já bastante reduzido.
Quando a queixa finalmente aparece — esbarrar em batentes, não ver o degrau, perder o carro que vinha pela lateral —, boa parte das fibras do nervo já se foi. E o que se perdeu não volta.
Existe uma forma aguda, bem menos comum, em que a drenagem fecha de uma vez. Aí os sintomas são fortes e súbitos:
- Dor intensa no olho e na cabeça, de um lado só
- Visão embaçada com halos coloridos em volta das luzes
- Olho vermelho e duro
- Náusea e vômito — que fazem muita gente procurar o clínico, e não o oftalmologista
Isso é emergência oftalmológica e precisa de atendimento nas próximas horas, não no dia seguinte.
Quem deveria examinar mesmo enxergando bem
Como o sintoma não é confiável, o que sobra é o risco. Vale marcar um exame, ainda que a visão esteja ótima, se você:
- Tem mais de 40 anos — a partir daí a frequência de glaucoma sobe de forma consistente
- Tem caso na família, sobretudo pai, mãe ou irmão. Esse é o fator isolado mais importante
- É negro ou pardo — o glaucoma começa mais cedo e costuma ser mais agressivo nessas populações
- Já ouviu de algum médico que tem a pressão do olho alta, mesmo sem diagnóstico fechado
- Tem diabetes, miopia alta, ou usa ou usou corticoide por tempo prolongado, em colírio, comprimido, injeção ou pomada
- Já teve trauma no olho, mesmo há muitos anos
Se você tem glaucoma na família, avise seus irmãos e filhos. É a informação mais útil que você pode dar a eles — e é gratuita.
Como eu avalio na consulta
A consulta inicial responde a duas perguntas: há sinal de glaucoma? e qual o seu risco de vir a ter? Para isso eu combino:
- Medida da pressão intraocular (tonometria). Rápida e indolor. Um valor isolado diz pouco — o que informa é o conjunto
- Exame do nervo óptico, com a pupila dilatada. É aqui que o glaucoma se revela: o nervo lesado tem uma escavação característica, e muitas vezes ela aparece antes de qualquer perda de campo
- Avaliação da córnea e do ângulo de drenagem, que ajudam a interpretar a pressão medida e a saber se o risco é da forma crônica ou da aguda
Conforme o que eu encontro, dois exames costumam entrar para fechar o quadro: o campo visual, que mapeia o que você deixou de enxergar sem perceber, e a OCT do nervo óptico, que mede a espessura das fibras nervosas e detecta perda antes do campo visual acusar.
No glaucoma, a comparação vale mais que o retrato: um campo visual isolado mostra hoje, dois campos ao longo do tempo mostram se está progredindo. Traga sempre os exames antigos, mesmo os feitos em outro serviço.
O tratamento e quem conduz
Meu papel no glaucoma é o da consulta inicial: examinar, medir a pressão, avaliar o nervo óptico e pedir os exames que fecham o diagnóstico. Confirmado o glaucoma, encaminho você ao setor de glaucoma do IOR, que conduz o tratamento e o acompanhamento. É no mesmo prédio, com os seus exames em mãos — você não recomeça a investigação do zero em outro serviço.
Sobre o tratamento em si, vale você já saber o essencial. O objetivo é baixar a pressão do olho o suficiente para que o nervo pare de perder fibras. Não se trata de recuperar o que já foi perdido — trata-se de proteger o que ainda existe. Os caminhos são três, e frequentemente combinados:
- Colírios. É o começo na maioria dos casos. Reduzem a produção do líquido ou melhoram a drenagem. Costumam ser de uso contínuo, muitas vezes para o resto da vida
- Laser. Procedimento ambulatorial que melhora o escoamento. Em alguns casos é usado já no início, em outros quando o colírio não basta
- Cirurgia. Cria um novo caminho de drenagem para o líquido. É indicada quando a pressão não cede com colírio e laser, ou quando a doença segue progredindo apesar deles
Parar o colírio porque "está enxergando bem". O colírio do glaucoma não melhora a visão — ele impede a piora. Como a doença não dá sintoma, o paciente que abandona o tratamento só descobre o erro quando a perda já aconteceu.
Resumo rápido
O glaucoma lesiona o nervo óptico em silêncio, começando pelas bordas do campo de visão, e o que se perde não volta. Por isso ele não é encontrado por quem sente algo, e sim por quem examina. A partir dos 40 anos, ou antes se há caso na família, uma consulta com medida de pressão e exame do nervo já responde muita coisa. Diagnóstico feito, o tratamento é conduzido pelo setor de glaucoma do IOR — e ele funciona: a imensa maioria das pessoas tratadas a tempo enxerga bem pelo resto da vida.
Se você tem caso na família, passou dos 40 ou já ouviu falar em pressão alta no olho, vale marcar uma avaliação. É um exame simples, e no glaucoma o cedo faz toda a diferença.