O que é o estrabismo
Estrabismo é a perda do alinhamento entre os dois olhos: enquanto um mira o objeto, o outro aponta para outra direção. O desvio pode ser para dentro, para fora, para cima ou para baixo, e pode ser constante ou aparecer só às vezes — no cansaço, na doença, na leitura prolongada.
Para enxergar em profundidade, o cérebro precisa receber duas imagens quase idênticas e fundi-las numa só. Quando os olhos não apontam para o mesmo ponto, chegam duas imagens diferentes, e o cérebro tem duas saídas: ou enxerga em dobro, ou desliga a imagem do olho desviado.
O cérebro adulto não consegue desligar uma imagem — por isso o adulto com desvio novo enxerga em dobro. O cérebro da criança consegue, e é justamente aí que mora o perigo: ela não reclama de nada, porque simplesmente deixou de usar aquele olho.
Na criança: o que está em jogo é o tempo
Quando o cérebro infantil suprime a imagem de um olho por tempo suficiente, aquele olho não aprende a enxergar. Isso se chama ambliopia — o que popularmente se conhece como "olho preguiçoso". Não é um problema do olho em si: o olho é anatomicamente normal, mas a via visual dele não se desenvolveu.
E aqui está o ponto decisivo: o desenvolvimento visual tem uma janela. Ele acontece de forma intensa nos primeiros anos e vai se fechando ao longo da infância. Tratada cedo, a ambliopia é reversível na grande maioria dos casos. Tratada tarde, a perda tende a ser definitiva — e nenhum óculos, lente ou cirurgia recupera depois.
- Qualquer desvio de um olho depois dos 4 meses de idade
- Desvio que era ocasional e ficou constante, ou que está piorando
- A criança inclina ou vira a cabeça de um jeito característico para olhar
- Ela fecha ou aperta um olho na claridade ou para focar
- Reflexo esbranquiçado na pupila, numa foto com flash — isso é avaliação urgente, não de rotina
- Queixa de visão dupla, tropeços frequentes ou dificuldade escolar sem causa clara
Um detalhe importante: é comum ouvir que "vai corrigir sozinho quando crescer". Antes dos 4 meses, um desalinhamento intermitente pode mesmo ser normal. Depois disso, não — e esperar custa exatamente o recurso que não se repõe, que é o tempo.
No adulto: desvio novo é sinal de alarme
Adulto que sempre teve um desvio e convive com ele há décadas é uma situação; adulto que nunca teve e começa a desviar é outra completamente diferente.
Como o cérebro adulto não suprime a imagem, o primeiro sintoma costuma ser visão dupla — duas imagens lado a lado ou uma sobre a outra, que somem ao tapar um dos olhos. Isso quase sempre significa que algum dos nervos que comandam os músculos do olho parou de funcionar bem, e a causa pode ser séria.
- Visão dupla que surgiu de repente
- Desvio acompanhado de dor de cabeça forte, dor atrás do olho ou queda da pálpebra
- Pupila de tamanho diferente da outra, junto com o desvio
- Fraqueza em braço ou perna, dificuldade para falar, perda de equilíbrio
Nesse cenário o olho é a janela, não o problema: a investigação envolve pressão, diabetes, circulação cerebral e, em alguns casos, exame de imagem do crânio. Não é caso de agendar consulta para a semana que vem.
Como eu avalio na consulta
A consulta responde a três perguntas: existe desvio de verdade?, ele já cobrou preço na visão? e há algo por trás dele?
- Medida da visão de cada olho separadamente. Em criança pequena, isso se faz por resposta ao estímulo e pela preferência de fixação, sem depender de ela saber ler
- Testes de alinhamento e de cobertura, que revelam desvios que passam despercebidos ao olhar comum e medem a quantidade do desvio
- Exame do reflexo vermelho e do fundo de olho, para afastar causas dentro do olho — catarata congênita, alterações da retina e do nervo óptico
- Refração sob cicloplegia, com colírio que paralisa temporariamente o foco. Em criança isso é indispensável: um grau alto de hipermetropia não corrigido é causa frequente de desvio, e nesse caso o óculos certo pode alinhar os olhos
Muitos pais estranham a necessidade do colírio que dilata. Ele existe porque a criança tem uma capacidade de foco enorme e "esconde" o próprio grau — sem a cicloplegia, a medida sai errada e o óculos prescrito não resolve. O efeito passa em algumas horas. Escrevi sobre isso na página de dilatação da pupila.
O tratamento e quem conduz
Meu papel no estrabismo é a consulta inicial: confirmar o desvio, medir a visão de cada olho, examinar o fundo de olho e a refração, e identificar se há uma causa que precise de atenção imediata. Confirmado o diagnóstico, encaminho você ao setor de estrabismo e oftalmopediatria do IOR, que conduz o tratamento — no mesmo prédio, com os seus exames em mãos.
Sobre o tratamento, vale saber que ele quase nunca começa pela cirurgia. Os caminhos são, em geral, nesta ordem:
- Óculos. Quando o desvio é causado por grau não corrigido — sobretudo hipermetropia —, a lente certa pode alinhar os olhos sem mais nada
- Tratamento da ambliopia. Se um olho ficou para trás, é preciso estimulá-lo, tampando o olho bom por algumas horas ao dia ou usando colírio que borra a visão dele. É o tratamento que tem prazo, e por isso vem antes de tudo
- Exercícios ortópticos, úteis em tipos específicos de desvio, especialmente os intermitentes
- Cirurgia. Ajusta a tensão dos músculos que movem o olho. Entra quando o desvio persiste apesar do óculos, ou quando é grande o bastante para impedir o alinhamento
Ainda se ouve que a cirurgia de estrabismo é "cosmética". Não é. Alinhar os olhos restaura a possibilidade de visão em profundidade, elimina a posição forçada de cabeça e resolve a visão dupla — sem contar o impacto social, que em criança em idade escolar é real e não deve ser minimizado.
Resumo rápido
Estrabismo não é questão de aparência. Na criança, o cérebro desliga o olho desviado e a visão daquele olho deixa de se desenvolver — um prejuízo que se reverte se tratado dentro da janela e que se torna definitivo se ficar para depois. Qualquer desvio depois dos 4 meses merece exame, e "vai melhorar quando crescer" é o conselho que mais custa visão. No adulto que nunca teve, um desvio ou uma visão dupla que surgem de repente pedem atendimento no mesmo dia. Feito o diagnóstico, o tratamento é conduzido pelo setor de estrabismo e oftalmopediatria do IOR — e ele começa quase sempre pelo óculos, não pelo bisturi.
Se você notou o olhinho da criança desviando, ou se um desvio apareceu na sua visão de adulto, marque uma avaliação. É um exame simples, e no estrabismo infantil o cedo é literalmente insubstituível.