O que é o descolamento de retina
A retina é uma película fina e delicada que forra a parede interna do olho, por dentro, como um papel de parede. É ela que transforma a luz que entra em imagem — sem retina, o olho é uma câmera sem filme.
No descolamento, essa película se solta da parede. Na forma mais comum, primeiro aparece um pequeno rasgo na retina — uma rotura (uma rasgadura, um furo). Pela rotura, o líquido que existe dentro do olho passa para trás da retina e vai levantando o papel de parede, ponto a ponto.
É por isso que a perda de visão do descolamento costuma vir como uma sombra que cresce, e não como um apagão de uma vez. A parte da retina que ainda está colada continua enxergando. A parte que soltou, não.
O descolamento de retina não dói, avança sozinho e é uma das poucas emergências de verdade da oftalmologia — o tempo entre o sintoma e a cirurgia é parte do tratamento.
Como ele se anuncia
Quase sempre há um aviso antes. O problema é que o aviso é discreto e a maioria das pessoas espera para ver se melhora. São três sinais, e eles costumam aparecer nesta ordem:
Moscas volantes que apareceram de repente
Pontinhos, teias ou fiapos escuros que flutuam na visão. Muita gente tem moscas há anos, e isso é normal. O que não é normal é uma chuva de moscas novas, de um dia para o outro, especialmente em um olho só.
Flashes de luz
Como um relâmpago ou o clarão de uma máquina fotográfica, no canto da visão, que você vê mesmo de olho fechado ou no escuro. São a retina sendo puxada. Se os flashes estão ficando mais frequentes, o puxão está aumentando.
Sombra ou cortina
Uma cortina escura que sobe, desce ou entra pelo canto e não sai quando você pisca. Esse já é o descolamento acontecendo. É o sinal mais importante deste material e o que exige atendimento no mesmo dia.
Porque não dói. Nenhum dos três sinais dói, e o olho continua enxergando com a parte que ainda está colada — às vezes bem o bastante para a pessoa achar que dá para deixar para segunda-feira. Dor não é o critério aqui. O critério é a mudança súbita.
A pergunta que muda tudo
Quando você chega ao consultório com um descolamento, a primeira coisa que eu preciso saber não é o tamanho dele. É se ele já chegou à mácula (o centro da retina, a parte com que você lê, reconhece rostos e dirige).
Isso divide o quadro em duas situações completamente diferentes:
| Situação | O que significa | O que fazemos |
|---|---|---|
| A mácula ainda está colada | A visão central ainda está preservada. Há uma janela para salvá-la inteira. | Cirurgia com urgência, nos próximos dias. Aqui cada dia conta de verdade. |
| A mácula já descolou | A visão central já caiu. Parte da recuperação vai depender de quanto tempo ela ficou descolada. | Cirurgia também, e o quanto antes — os resultados são melhores quando operamos dentro da primeira semana. |
Repare no que essa tabela quer dizer na prática: se a sua mácula ainda está colada, existe uma visão central para ser salva, e ela está em contagem regressiva. É a situação em que a pressa muda o resto da sua vida visual — e é a razão de eu insistir tanto para que ninguém espere.
Por que acontece e quem tem mais risco
Na maior parte das vezes, tudo começa com um processo natural do envelhecimento do olho: o gel que preenche o globo ocular — o vítreo (a gelatina transparente que ocupa o interior do olho) — encolhe e se solta da retina. Na maioria das pessoas isso passa sem consequência, causando apenas moscas volantes. Em algumas, ao se soltar, o vítreo puxa a retina com força suficiente para rasgá-la. Daí para o descolamento é questão de dias ou semanas.
Algumas condições aumentam bastante essa chance:
A miopia é o fator isolado mais importante. O olho míope é mais comprido, e a retina dele fica mais esticada e mais fina na periferia — o risco de descolamento é muitas vezes maior do que o de quem não tem miopia, e cresce conforme o grau aumenta. Se você tem miopia alta, o exame de retina com a pupila dilatada não é um exagero de médico: é a vigilância que faz sentido para o seu olho.
Quem já operou catarata também tem risco um pouco maior, e quem já teve descolamento em um olho precisa vigiar o outro — a chance de acontecer nos dois olhos, ao longo da vida, não é desprezível.
Nada do que você fez causou isso. Descolamento de retina não vem de ler muito, de usar telas, de esforço físico comum ou de ter chorado. Vem, quase sempre, de uma característica anatômica do seu olho que você não escolheu. O que está no seu controle é o que você faz a partir do sintoma.
Como eu confirmo
O exame que fecha o diagnóstico é o mapeamento de retina (exame do fundo do olho com a pupila dilatada). Pingo um colírio que dilata a pupila, espero cerca de vinte minutos e examino a retina inteira — inclusive a periferia, que é onde a maioria das roturas se esconde e onde nenhum exame feito com a pupila fechada consegue chegar.
É um exame simples, não dói e responde três perguntas de uma vez: existe rotura, existe descolamento e a mácula está envolvida. Com essas três respostas, a conduta fica definida na mesma consulta.
Quando há muito sangue dentro do olho e eu não consigo enxergar o fundo, uso a ultrassonografia ocular (um ultrassom do olho, igual ao de qualquer outra parte do corpo), que mostra a retina mesmo através do sangue. A OCT (tomografia de coerência óptica, que fotografa a retina em cortes) entra quando preciso saber com precisão se a mácula já foi atingida.
Se você tem sintomas novos, venha com alguém e não venha dirigindo. A pupila fica dilatada por várias horas e a visão de perto e a sensibilidade à luz ficam prejudicadas nesse período. E, principalmente: não adie o exame porque hoje está corrido. Um exame de vinte minutos hoje pode ser a diferença entre um laser no consultório e uma cirurgia com internação.
O tratamento
Aqui a distinção mais importante do material: o que trata a rotura não é a mesma coisa que o que trata o descolamento.
Se há só a rotura, sem descolamento: laser
Se eu encontro a rasgadura antes de a retina soltar, o tratamento é a fotocoagulação a laser (aplicação de laser em volta do rasgo). Faço no próprio consultório, com anestesia em colírio, em poucos minutos. O laser cria uma cicatriz que funciona como uma solda em volta da rasgadura, impedindo que o líquido passe por baixo. Não há corte, não há internação, você vai para casa em seguida.
É por isso que eu insisto tanto na pressa. A diferença entre chegar na fase da rotura e chegar na fase do descolamento é a diferença entre isso e uma cirurgia.
Se a retina já descolou: cirurgia
Quando a retina já soltou, o laser não resolve mais — é preciso recolocá-la no lugar. Existem três técnicas, e a escolha depende de onde está a rotura, do tamanho do descolamento e das condições do seu olho:
| Técnica | Como funciona | Quando eu escolho |
|---|---|---|
| Vitrectomia | Entro dentro do olho por microincisões, retiro o gel que está puxando a retina, dreno o líquido de baixo dela e deixo uma bolha de gás ou óleo para segurá-la no lugar. | É a técnica mais usada hoje. Serve para a maioria dos casos, inclusive os mais extensos, com várias roturas ou com sangramento. |
| Introflexão escleral | Coloco uma faixa de silicone por fora do olho, que empurra a parede do globo delicadamente para dentro, ao encontro da retina solta. | Em casos selecionados, sobretudo em pacientes mais jovens, em que o gel ainda está firmemente aderido. |
| Retinopexia pneumática | Injeto uma bolha de gás dentro do olho, no consultório ou no centro cirúrgico, e a bolha empurra a retina de volta contra a parede. | Só em casos bem específicos: rotura única, na parte de cima da retina, e descolamento recente. É a menos invasiva, mas a que menos vezes serve. |
Com a cirurgia, a retina volta ao lugar em torno de nove em cada dez casos já na primeira operação. No restante, é necessária uma segunda cirurgia — e isso não significa que a primeira foi mal feita. Em alguns olhos, a própria cicatrização produz um tecido que puxa a retina de novo, e esse é um comportamento do olho, não uma falha da técnica.
Não existe colírio, comprimido, vitamina, laser "de fora" ou repouso que cole uma retina descolada. Se alguém oferecer alternativa à cirurgia para um descolamento estabelecido, esse alguém está lhe vendendo tempo — e tempo é justamente o que você não tem para gastar. Colírios e medicamentos têm papel depois da cirurgia, não no lugar dela.
O gás, o óleo e a sua cabeça
Na vitrectomia, depois de recolocar a retina, preciso deixar alguma coisa dentro do olho segurando-a contra a parede enquanto ela cicatriza. Essa coisa é o tamponamento (o que preenche o olho e empurra a retina por dentro), e ele pode ser gás ou óleo de silicone.
| Tamponamento | O que você precisa saber |
|---|---|
| Gás | O olho absorve sozinho em algumas semanas, sem nova cirurgia. Em compensação, exige que você mantenha a cabeça na posição que eu indicar — muitas vezes olhando para baixo — durante boa parte do dia. E proíbe viagem de avião e altitude enquanto a bolha estiver lá: a pressão externa cai, o gás expande e a pressão dentro do olho sobe a níveis perigosos. Durante esse período a visão fica muito embaçada, como olhar através de um copo d'água — é esperado. |
| Óleo de silicone | Fica no olho até ser retirado numa segunda cirurgia, meses depois. Em troca, a exigência de posicionamento é bem menor, a visão volta mais rápido e não há restrição para voar. Uso quando o descolamento é mais complexo, quando a rotura é na parte de baixo ou quando manter a posição da cabeça não é viável para você. |
Se você ficou com gás, o posicionamento da cabeça é parte da cirurgia, e é a parte que fica sob a sua responsabilidade. É cansativo, é desconfortável e é o que faz a bolha trabalhar no lugar certo. Combino com cada paciente a posição exata e por quantos dias — e prefiro explicar duas vezes a deixar dúvida sobre isso.
O que esperar da visão depois
Aqui eu preciso ser honesto, porque é a pergunta que todo mundo faz e a resposta não é a que todo mundo quer ouvir.
Recolocar a retina no lugar e recuperar a visão são duas coisas diferentes. A cirurgia resolve muito bem a primeira. A segunda depende, em boa medida, de algo que já aconteceu antes de você entrar no centro cirúrgico: se a mácula descolou e por quanto tempo ela ficou assim.
Se a mácula não chegou a descolar, a expectativa é excelente e a maioria das pessoas volta perto de onde estava. Se a mácula descolou, a visão central melhora — mas raramente volta exatamente como era. É comum ficar alguma distorção (linhas que parecem tortas, letras que dançam) ou alguma perda de nitidez, e isso acontece com cerca de dois terços dos pacientes nessa situação, na maioria das vezes de forma leve.
A boa notícia é que a recuperação é lenta e continua acontecendo: a visão melhora ao longo de meses, e é comum ganhar qualidade até seis meses a um ano depois da cirurgia — às vezes além disso. Não julgue o resultado pela primeira semana, nem pelo primeiro mês.
O objetivo da cirurgia é salvar a visão que dá para salvar e impedir que o olho perca o resto. Não é devolver a visão de vinte anos atrás. Quando eu opero cedo, com a mácula ainda colada, essa conversa muda completamente de tom — e é exatamente por isso que este material insiste tanto em não esperar.
O que depende de você
Desses, dois são decisivos. O primeiro é procurar atendimento no dia em que o sintoma aparece — é a única coisa que você pode fazer que muda o prognóstico antes de eu entrar em cena. O segundo é manter o posicionamento se você ficar com gás: é desconfortável, é chato, e é o que segura a retina no lugar enquanto ela cola.
E depois que tudo passar, não abandone o acompanhamento. Quem teve descolamento em um olho precisa examinar o outro periodicamente, para o resto da vida. Não por pessimismo — por aritmética.
Perguntas que sempre me fazem
Vou ficar cego?
Com tratamento, quase nunca. O descolamento não tratado pode, sim, levar à perda grave e permanente da visão daquele olho. Tratado, a retina volta ao lugar na grande maioria dos casos. O que está em jogo não costuma ser "enxergar ou não enxergar", e sim quanto você vai enxergar — e isso depende bastante de quando você chegou.
Dá para esperar até segunda-feira?
Não. Se você tem sombra, cortina ou uma chuva de moscas com flashes, procure atendimento no mesmo dia, inclusive em fim de semana. A retina não sabe que dia é hoje, e a mácula pode descolar em questão de horas.
A cirurgia dói?
Não. É feita com anestesia local e sedação — você fica confortável e sem dor durante o procedimento. No pós-operatório é comum algum desconforto, sensação de areia e olho vermelho por alguns dias, controlados com colírios e analgésicos comuns.
Vou precisar de óculos novos depois?
Provavelmente sim, e é melhor esperar. A cirurgia pode mudar o grau do olho, e a visão leva semanas a meses para estabilizar. Prescrever óculos cedo demais significa comprar duas vezes.
Posso perder a visão do outro olho também?
O risco no outro olho é maior do que o da população em geral, mas está longe de ser uma sentença. É justamente por isso que eu examino os dois olhos e mantenho você em acompanhamento — e, se encontrar uma área de fragilidade no outro olho, posso tratá-la com laser antes que ela vire problema.
Fazer esforço ou carregar peso descola a retina?
Em um olho saudável, não. A atividade física comum não causa descolamento. Depois da cirurgia, porém, eu oriento restrições temporárias — e essas têm motivo e prazo, que eu explico caso a caso.
Quando me procurar hoje mesmo
Se qualquer um destes aparecer, não espere o próximo retorno e não espere melhorar sozinho:
- Sombra, cortina ou mancha escura que entra por um lado da visão e não sai ao piscar.
- Chuva de moscas volantes — muitas, de uma vez, diferentes das que você já tinha.
- Flashes de luz novos, ou que estão ficando mais frequentes.
- Queda súbita da visão em um olho, mesmo sem dor.
- Visão distorcida, com linhas retas que passaram a parecer tortas.
- Depois de trauma no olho, qualquer um dos sintomas acima.
Nenhum desses sintomas dói. É exatamente por isso que eles são perigosos: o olho não dá o aviso que o corpo costuma dar. Trate a mudança súbita de visão com a mesma seriedade com que você trataria uma dor forte no peito — procure atendimento no mesmo dia e deixe que o exame diga se era grave ou não.